segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Entrevista com o Historiador Ambiental Miguel Mundstock Xavier de Carvalho

Hoje passo a colocar uma entrevista de um grande amigo e também assíduo doutorando e historiador ambiental Miguel Mundstock Xavier de Carvalho, extraída do site de História Ambiental.
Façam bom proveito!
abraços




A Floresta com Araucária com Miguel Mundstock Xavier de Carvalho

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O historiador ambiental Miguel Mundstock Xavier de Carvalho* é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC e tem se dedicado aos estudos da exploração da Floresta com Araucária e suas relações com outras ciências socioambientais. Neste mês de Janeiro, a RBHA realiza uma entrevista sobre os seus recentes trabalhos.

jan09RBHA: Os trabalhos sobre história ambiental brasileira têm dado pouca importância à influência das populações de caboclos e indígenas sobre a modificação da paisagem, em que medida esta distorção influencia a observação das relações históricas com o meio ambiente?


Miguel Mundstock : Não sei se é correto afirmar que tem se dado pouca importância a influência das populações de caboclos e indígenas. Nos trabalhos de história ambiental produzidos dos anos 1990 para cá, o papel dos indígenas e caboclos não tem sido negligenciado, muito pelo contrário, hoje parece estar superado o “romantismo” que via o caboclo, o indígena e outras populações chamadas “tradicionais” como vivendo em uma harmonia completa com a natureza. Por outro lado, os historiadores também estão atentos aos discursos das fontes que muitas vezes exageram ao imputar ao caboclo e sua cultura de coivara, grande responsabilidade pela destruição das florestas.

RBHA: Alguns grupos étnicos de imigrantes europeus do Médio Vale do Iguaçu, como é o caso dos poloneses e ucranianos, não se desenvolveram de maneira eficaz na exploração madeireira comparativamente ao grupo dos alemães e italianos. Existe uma explicação histórico-cultural para este fenômeno?


Miguel Mundstock : O foco do meu trabalho de pesquisa até aqui não foi identificar quais grupos étnicos estavam mais envolvidos com a indústria madeireira, mas acho que você tem razão quanto a essa divisão. Vale a pena investigar isso com mais cuidado. Talvez isso se deva ao fato de que grande parte dos alemães e italianos que se instalaram no Médio Iguaçu já eram imigrantes de segunda, terceira ou quarta geração, que originalmente migraram da Europa para o Rio Grande do Sul. No Rio Grande do Sul, alguns desses migrantes começaram a montar pequenos engenhos de serra (as primitivas serrarias) e ganhando experiência na atividade, e assim, descendentes de italianos e alemães que posteriormente migraram para a região do Médio Iguaçu já possuíam experiência e capital para entrar nessa atividade. Por outro lado, a imigração ucraniana e polonesa no Médio Iguaçu no final do século XIX e início do século XX se deu com pessoas vindas diretamente da Europa, o que pode ter contribuído para que estes tivessem menos experiência e capital para entrar no ramo de negócio madeireiro.

RBHA: Algumas famílias tradicionais dos pioneiros do Médio Vale do Iguaçu hoje são beneficiárias dos recursos obtidos pela exploração da Floresta de Araucária pelos seus antecedentes em detrimento da maioria da população. A seu ver, o chamado “pioneirismo” foi menos romântico do que se imagina e talvez uma forma de se aproveitar ao máximo a exuberante Floresta com Araucária sem nenhuma preocupação com as gerações que estavam por vir?


Miguel Mundstock : Em primeiro lugar é preciso lembrar que a noção falsa de “pioneirismo”, aquele que chegou primeiro e fundou o lugar, tem sido utilizada tanto por famílias de fazendeiros como de colonos na região, conforme a localidade. Nas regiões de campos do Médio Iguaçu, os nomes de fazendeiros estão associados ao pioneirismo, enquanto nas colônias, os sobrenomes poloneses, ucranianos, alemães, estão associados ao pioneirismo. Como já se tem discutido bastante isso, o discurso do “pioneirismo” ultrapassa em seu significado a narrativa da chegada dos colonos ou fazendeiros em tempos difíceis, quando não havia escola, estrada, e havia o ataque dos indígenas. O discurso do “pioneirismo” nas últimas décadas tem tido um efeito político-ambiental muito forte nas últimas décadas, e não só no Médio Iguaçu, que é justamente coroar de glórias as famílias de madeireiros, pecuaristas e outros setores da elite e assim minimizar toda a devastação ambiental e conflitos sociais que essa história gloriosa trouxe. Portanto, a narrativa do “pioneirismo”, comum em muitos livros de história local, é uma narrativa incompleta e enganadora quanto aos seus custos ambientais e sociais.

RBHA: A existência de muitos mitos e de poucas fontes informação primárias prejudicam a elucidação do verdadeiro papel histórico-ambiental da Lumber? Neste sentido, quais os pontos de ineditismo de sua pesquisa?


Miguel Mundstock : Acho que não seriam exatamente mitos, mas afirmações repetidas de livro para livro sem uma pesquisa de fontes mais aprofundada o que gera alguns pequenos erros de informação sobre a Lumber. Quanto as fontes, acredito que a quantidade de documentos sobre a Lumber existente não é pequena, mas está dispersa em vários arquivos e na mão de particulares. O desafio justamente é esse, de como reunir e interpretar tais documentos. Acredito que o papel histórico-ambiental da Lumber não foi completamente compreendido por duas razões. Em primeiro lugar, a Guerra do Contestado tem sido um assunto polarizador de interesse, e a Lumber acaba sendo um objeto secundário de interesse acadêmico, isso explica a falta de informações históricas básicas sobre a empresa em livros de história. Em segundo lugar, e o que é mais relevante para a história ambiental, é o fato de que a Lumber tem sido compreendida principalmente em termos de seu papel modernizador, capitalista e no seu envolvimento com o conflito do Contestado. A dimensão ambiental da atuação da Lumber na floresta com araucária não tem sido compreendida adequadamente, como a empresa que mais devastou a floresta e não realizou nada de reflorestamento, sem nenhuma preocupação com a floresta ou mesmo com o futuro da economia madeireira da região. Nesse sentido, a minha pesquisa procura entender a empresa como um modelo de como foi pensada e explorada concretamente a floresta com araucária no sul do Brasil.

RBHA: Em sua opinião, pode-se dizer que a Guerra do Contestado foi o primeiro conflito socioambiental ambiental brasileiro?


Miguel Mundstock : Eu não diria que foi o primeiro, pois todo conflito que envolve disputas de terra é em última análise, um conflito pela posse do meio ambiente, ou seja, um conflito socioambiental. A região do Contestado, nos anos imediatamente ao conflito, passou por profundas mudanças na estrutura fundiária, com a chegada da Lumber, companhias colonizadoras, fazendeiros e as incertezas geradas pela disputa dos limites entre Paraná e Santa Catarina que se arrastavam há vários anos. Tudo isso parece ter sido decisivo para ocasionar a rebelião dos sertanejos, que teve portanto um componente ambiental forte, o componente da terra.

RBHA: A história da Lumber (concessão de áreas para exploração de recursos, trabalho escravo e exportação de riquezas) parece se repetir constantemente no último século XX evidenciado na abertura das últimas fronteiras agrícolas do Centro-Oeste e Norte do Brasil. Qual o papel social do historiador ambiental em elucidar este péssimo legado ambiental que nos foi herdado?


Miguel Mundstock : O papel do historiador é justamente contribuir no debate de como devemos gerir as florestas que restaram, nesse caso a floresta amazônica. Os historiadores tem a capacidade de informar e fazer um balanço crítico do passado destruidor do meio ambiente que tem sido a história da exploração da floresta com araucária, por exemplo. E assim comparações podem ser feitas, entre realidades diferentes no tempo e no espaço, tomando as devidas precauções, é verdade. Mas é justamente o ousar comparar situações históricas diferentes é que pode tornar a história algo útil para podermos construir hoje uma relação de maior respeito por plantas, animais, seres humanos e ecossistemas.

*Miguel Mundstock Mundstock Xavier de Carvalho

Doutorando em História
Universidade Federal de Santa Catarina

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