segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A CULTURA DO ABSOLUTO

Trago aqui uma reflexão feita pelo professor Paulo Roney acerca da cultura do absoluto e suas implicações em nossa sociedade ocidental.

A CULTURA DO ABSOLUTO(I)


Vivemos em uma cultura em não se admite o relativo. Queremos curar, eliminar o mal, em vez de controlá-lo. Queremos extirpar, excluir, eliminar sempre, sem a compreensão de que a vida é um jogo de elementos contrários. As religiões, especialmente as monoteístas, contribuíram decisivamente para a idéia de que o bem deverá prevalecer, de que deveremos ser felizes e que superaremos todos os obstáculos. Que ilusão! Tal propósito de vida vai gerar sempre frustração, a todo instante estaremos diante do inacabado, do impossível de ser alcançado, das neuroses que, de alguma forma, integram nossas personalidades. A cultura do absoluto gera apenas frustração ou distúrbios psíquicos. Maximizada, produz regimes absolutistas, discriminação de sexo, raça, credo religioso ou de convicções políticas. Para a cultura do absoluto a convivência não se torna possível. O maligno deverá ser eliminado, Satanás é o inimigo, a dor é um mal, o criminoso deverá ser eliminado da sociedade. A cultura do absoluto é superficial, externa, não permite o autoconhecimento. Morin afirma que todos nós somos diabólicos e divinos, graças a Deus. A ciência fracassa quando ela quer combater as doenças. Tem maior êxito quando adota estratégias, compreendendo as moléstias e seus mecanismos, porquanto a vida resulta, segundo Kikuchi, de um equilíbrio desequilibrante. A homoestase é uma busca permanente. Somente esta em equilíbrio termodinâmico relativo o morto. A vida é resultante de uma tensão, do movimento, da transformação e de um devir constante. Olvidamos da dialética e adotamos a dogmática como padrão de pensamento. Basarab Ionesco, quando se refere à lógica do terceiro incluído, diz que infelizmente na nossa cultura somente reconhecemos o branco e o preto e deixamos de lado o gris. E, mesmo assim, temos uma tendência a hierarquizar os dois elementos que admitimos. E, assim, consideramos o branco mais importante que o preto, o bem mais importante que o mal, o masculino mais importante que o feminino etc. A cultura do absoluto quer depurar, a todo momento, e localizar o que não lhe convém. É, em suma, criminosa, porquanto persegue e quer impor um modelo que é elitista. O que é mais grave, segundo Nietzsche que é adotada pelo modelo político, pelo Estado, que subsituiu Deus na modernidade. Ou que quer traz à tona sempre uma nova divindade que tem a pretensão de dar todas as respostas, como hodiernamente a Deusa Genética. A cultura do absoluto sempre apresenta uma tentativa de simplificação do complexo, de apresentar respostas definitivas para o que não pode admite conclusões definitivas.


Paulo Roney

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